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Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha | 25 de julho

Brasília – No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, a Defensoria Pública da União (DPU) lança uma campanha que homenageia mulheres afro-amazônidas que participaram da Cabanagem, uma das mais importantes revoltas populares da história do Brasil. Promovida pelo Grupo de Trabalho Mulheres, a iniciativa busca reconhecer trajetórias historicamente invisibilizadas e ampliar as referências de resistência para mulheres e meninas negras.
A campanha integra as ações desenvolvidas anualmente pelo GT Mulheres em torno da data. Em 2025, a iniciativa utilizou ilustrações inspiradas no universo dos “Bobbie Goods” para apresentar defensoras negras e latino-americanas dos direitos humanos. Em 2026, a escolha foi resgatar a memória de mulheres negras que atuaram na resistência cabana, evidenciando um protagonismo frequentemente ausente das narrativas oficiais.
O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha foi instituído em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana. A data simboliza a luta contra o racismo, o sexismo e as desigualdades que atingem mulheres negras em todo o continente. No Brasil, a celebração também marca o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituído pela Lei nº 12.987/2014 em homenagem à líder quilombola que comandou o Quilombo do Quariterê, no século XVIII.
Embora as mulheres negras tenham participado da construção social, política e cultural da Amazônia desde o período colonial, sua presença foi sistematicamente apagada da historiografia. Pesquisadoras do feminismo afro-negro amazônico destacam que essa invisibilidade dificulta o reconhecimento de suas contribuições para a resistência, para a preservação dos territórios, da biodiversidade e dos saberes tradicionais, além de limitar sua presença nas narrativas oficiais, nos currículos escolares e na produção do conhecimento. A ausência de registros também repercute na falta de referências para meninas e adolescentes negras, reforçando a necessidade de recontar a história da região sob outros olhares.
Esse protagonismo antecede a própria Cabanagem. No século XVIII, Felipa Maria Aranha liderou o Quilombo do Mola, também conhecido como Quilombo do Tocantins, reunindo centenas de pessoas negras que fugiram da escravidão e organizando uma comunidade baseada na autonomia, na resistência e na vida coletiva. Após sua morte, a liderança foi assumida por Maria Luiza Piriá, que deu continuidade à defesa do território e à organização do quilombo, preservando modos de vida, saberes e tradições da cultura negra amazônica. Apesar da relevância de suas trajetórias, ambas permanecem pouco conhecidas fora dos movimentos sociais e da produção acadêmica, evidenciando o apagamento histórico enfrentado pelas mulheres negras da Amazônia.
Foi nesse contexto histórico de resistência que, algumas décadas depois, ocorreu a Cabanagem. Entre 1835 e 1840, a então Província do Grão-Pará foi palco de uma revolta popular liderada por indígenas, negros escravizados e libertos, mestiços, ribeirinhos e outros grupos socialmente marginalizados que viviam em cabanas às margens dos rios — origem do nome “cabanos”. O movimento surgiu em reação à concentração de poder nas elites locais, à pobreza, à exclusão política e às desigualdades sociais impostas à população amazônica. Durante o conflito, os cabanos chegaram a assumir o governo da província, tornando a Cabanagem uma das poucas revoltas populares da história do Brasil em que os insurgentes conquistaram o poder. A repressão do Império foi violenta e deixou dezenas de milhares de mortos, tornando o episódio um dos mais sangrentos do período regencial.
Apesar de sua relevância histórica, a participação feminina na Cabanagem permaneceu por muito tempo invisibilizada. Pesquisas recentes têm demonstrado que mulheres negras e indígenas atuaram na organização do movimento, nos combates, na logística e na proteção das comunidades, desempenhando papel fundamental na resistência, ainda que suas contribuições tenham sido pouco registradas pela historiografia tradicional.
Para a ponto focal do GT Mulheres e coordenadora da Biblioteca, Memória e Cultura, da Escola Nacional da Defensoria Pública da União, Dandara Baçã, a campanha integra as ações anuais desenvolvidas pela DPU para o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e busca dar visibilidade a mulheres negras cujas trajetórias permanecem invisibilizadas.
“Neste ano, escolhemos resgatar o protagonismo das mulheres afro-amazônidas na Cabanagem porque suas histórias mostram que, como afirma Jurema Werneck, ‘nossos passos vêm de longe’. São mulheres que enfrentaram o racismo e o sexismo com coragem, inteligência e criatividade, mas foram apagadas da história oficial. Ao recuperar essas memórias, queremos fortalecer a autoestima de mulheres e meninas negras, ampliar suas referências e mostrar que muitas das violências vividas pelas mulheres cabanas — como a invasão de territórios, a precarização das condições de vida e a violência de gênero — ainda fazem parte da realidade brasileira. Nossa expectativa é que a campanha alcance públicos dentro e fora da DPU e contribua para construir uma memória coletiva que reconheça essas mulheres como protagonistas da história”, afirma Dandara.
Ao lançar luz sobre essas trajetórias, a campanha reafirma que preservar a memória também é promover direitos humanos. Ao reconhecer as mulheres negras amazônidas como protagonistas da história brasileira, a DPU contribui para enfrentar o apagamento histórico, valorizar a diversidade de experiências femininas e fortalecer a luta por igualdade racial e de gênero.
Assessoria de Comunicação Social
Defensoria Pública da União